Persépolis: cela de água, poesia e da mulher iraniana nas HQs

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Persépolis Completo trata-se de uma obra autobiográfica, de autoria de Majane Satrapi, nome artístico de Majane Ebihamis, nascida no Irã, na província de Rasht, em 22 de Novembro de 1969. Seu trisavô fora o último imperador da dinastia Qadjar, e a sua educação envolveu a preservação da tradição persa, fundida a costumes modernos e ocidentalizados. De família politizada e com valores de esquerda, Marji, como era tratada pelos familiares, quando criança, sonhava ser uma profetiza e desejava salvar o mundo.

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Em 1979, presenciou a queda do Xá – título atribuído ao monarca persa – ante a Revolução Islâmica no Irã. Nesse contexto, se viu obrigada a usar o véu islâmico, portar-se de acordo com imposições religiosas, chorar os mortos de guerra e ter sua liberdade cerceada pelo regime que se instaurava em seu país. Temendo pela desde sempre exacerbada conduta revolucionária da filha, e zelando pela sua segurança, em 1983, aos 14 anos, os pais enviaram Marji à Áustria, para que pudesse receber uma educação moderna, em detrimento de imposições de ordem política, aliadas a dogmas religiosos.

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Ao retornar para o Irã, Marji se viu num dos maiores desafios de sua vida: viver como uma mulher iraniana, após anos de influência europeia. Incapaz de permanecer no contexto social de seu país, e sentindo-se refém de seu passado moderno e contraditório demais ao que era imposto no Irã, aos 24 anos, após casar-se e divorciar-se, retornou à Europa.

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Estabeleceu-se na França, onde produziu Persépolis, uma série autobiográfica de ilustrações em nanquim, com o intuito de dizer a um universo particular – sem sequer imaginar as proporções que a obra tomaria – quão intenso fora o universo que abarcava seus sonhos, sua inocência, sua forçosa resignação ante as perdas, o exílio, a solidão e a sensação permanente de estar à margem da humanidade.

Nesse sentido, o artista estará mais inserido no seu campo de conhecimento quanto mais seu discurso se fundamentar em determinadas matrizes históricas que, por sobreviverem ao tempo, se transformaram em ícones de uma ideologia, fazendo parte da cultura de um tempo e lugar e, portanto, base desse conhecimento. (DANSA, 1984, p. 3)

Na obra, a sequência de imagens, aliada à narrativa, aborda com sensibilidade aspectos sociológicos do povo iraniano – tão belos quanto conturbados – e a densidade política intrínseca.
As histórias em quadrinhos ou, simplesmente, HQs, são parte importante da cultura de massa e possuem uma proposta sui generis. Seus elementos são mais visuais que teóricos, o que permitem a interpretação subjetiva de cada indivíduo, de acordo com seu repertório, ao mesmo tempo em que possuem a capacidade de se afunilarem no coletivo. As HQs nas artes representam um importante veículo de comunicação em massa, entretanto, de acordo com Eco (2011, p. 151), pode-se dizer que

só após os experimentos da pintura contemporânea e as descobertas dos técnicos e artistas da fotografia, pôde a estória em quadrinhos impor suas próprias convenções gráficas como linguagem universal, com base numa sensibilidade agora adquirida por um público mais vasto.

Em particular nas ilustrações de Marjane Satrapi, em sua obra Persépolis Completo (2007), toda concebida em nanquim e, portanto, toda concebida em preto e branco, o traço e o grafismo abarcam significâncias culturais nítidas: a representatividade de rostos redondos, especialmente das mulheres, conforme são historicamente retratadas as iranianas, dada à alusão com Khorshid Khanoom, traduzida livremente como “Senhora Sol”, uma vez que o astro, no idioma persa, é feminino. Citando Joly (1996):

[…] a observação da composição visual, que marca o pressentimento da existência de signos plásticos e da sua interpretação socioculturalmente codificada. […] A escolha gráfica possui também a sua importância enquanto escolha plástica. As palavras têm, sem dúvida, uma significação imediatamente compreensível, mas esta significação é colorida, pintada ou orientada antes mesmo de ser percebida pelo aspecto plástico do grafismo (a orientação, a forma, a cor, a textura), do mesmo modo que as opções plásticas contribuem para a significação da imagem visual.

As HQs utilizam-se da linguagem comum, intrinsicamente ligada à iconografia e aos signos que lhe compõem. Dessa forma, o texto raramente pode ser dissociado da ilustração: trata-se de uma simbiose, onde, muito provavelmente, ele perderia o sentido fora do âmbito do enquadramento a que se refere.
Analisar a obra de Marjane Satrapi é, não somente tomar contato com os elementos gráficos e deixar fruir; vai além: o grafismo, por vezes, faz sangrar; os elementos são perturbadores, cheios de nuances, não há uma linearidade. É a inconstância do humano, um sarcasmo que provoca o riso e a dor – ou, melhor, o riso, em detrimento da dor.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DANSA, Salmo. Cultura visual e análise de imagens. Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao_artistica/0001.html>. Acesso em: 01 out. 2013.

ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 2011.

JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.

[Trechos extraídos da pesquisa Persépolis: cela de água e poesia (2013), de Mirelli Fernandes Rosa, para o Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Mirelli é diretora do filme documentário Azizam, junto com Andrea Mendonça, um longa-metragem que retratará o Irã sob o ponto de vista de quatro mulheres.]